A sexta rodada de negociações da Campanha Nacional Unificada, realizada nesta terça-feira (4), foi marcada por críticas da Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) ao conjunto das cláusulas econômicas, da minuta de reivindicações da categoria bancária.
A Fenaban também sugeriu que a PLR não deveria ser reajustada, uma vez que os bancos possuem programas próprios de remuneração variável, apontando que o lucro do setor bancário está sofrendo com a escalada de concorrência com outros atores no sistema financeiro nacional.
O Comando Nacional das Bancárias e dos Bancários rebateu, deixando claro que a PLR não se relaciona com os programas próprios e que não abre mão da valorização da PLR. “Os programas próprios não podem substituir a PLR. Cada banco define seu programa próprio, o que tem a ver, em alguns casos, com a venda de produtos. São importantes, mas são complementares, e nem podem substituir ou serem usados para reduzir o valor da PLR”, destacou a coordenadora do Comando, Juvandia Moreira.
O movimento sindica registrou que, ainda que Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) preveja a possibilidade de distribuir até 15% do lucro líquido, os grandes bancos privados distribuem, em média, um percentual bem menor: 5,9%.
Quanto às críticas da Fenaban ao conjunto das cláusulas econômicas, o Comando rebateu que a minuta reflete as reivindicações de diversos segmentos do setor bancário. “Inclusive, a minuta é uma defesa contra o movimento, iniciado em meados da década da 1990, por vários setores, de redução da remuneração fixa (direta ou indireta), que vem sendo substituída pela remuneração variável que, no geral, é baseado em metas e pressão”, completou Juvandia Moreira, que também é presidenta da Contraf-CUT.
Após um pedido de pausa para almoço, a Fenaban retornou dizendo que irá apresentar, na próxima rodada de negociações, dia 13 de agosto, uma proposta geral para todas as reivindicações, incluindo reajustes na remuneração, igualdade de oportunidades, saúde e condições de trabalho.
Entre os principais pontos de reivindicação da categoria nas cláusulas econômicas estão o aumento real (reposição da inflação mais 5% de reajustes) nos salários e demais verbas; valorização da PLR; aumento maior para va/vr; adoção do salário mínimo necessário do Dieese (R$ 7.999,44) como piso da categoria; e criação de um piso para os profissionais da TI.
"A expectativa da categoria é grande por aumento real, valorização da PLR, aumento maior nos tickets refeição e alimentação e no piso da categoria. Os bancários também exigem o fim das demissões em massa e do fechamento de agências”, observou Juvandia. "A categoria vem sofrendo uma contínua perda de massa salarial, agravada pela redução dos postos de trabalho. Desde 2014, a massa salarial real dos bancários acumula queda de 17%, sendo que, apenas no último ano, a retração foi de 2%, evidenciando o impacto das demissões e da redução do emprego sobre a renda dos trabalhadores", reforçou a dirigente.
O movimento sindical destacou ainda que, em 2025, as receitas de tarifas dos cinco maiores bancos cobriram 123% das despesas com o pessoal, incluindo PLR. Ou seja, com o que cobraram dos clientes, os bancos pagaram no ano passado toda a despesa de pessoal, inclusive PLR, com sobra equivalente a 23%. Quando retirada a PLR da conta, essa cobertura sobe para 142%.
Dados sobre a realidade financeira dos bancos:
- Em 2025, juntos, os cinco maiores bancos lucraram R$ 124 bilhões.
- Considerando todo o setor, o lucro líquido registrado foi de R$ 171 bilhões.
- O patrimônio líquido do setor bancário atingiu, no ano passado, o montante de R$ 1,2 trilhão.
Rentabilidade dos bancos e seus concorrentes, em 2025:
- Quase 60% de todo o patrimônio de um grupo de 164 bancos analisados estavam concentrados em instituições, que obtiveram rentabilidade entre 10% e 30% ao ano - considerados resultados excepcionais para a conjuntura.
- Embora 17% dos bancos (cerca de 28 instituições) tenham registrado resultado negativo (prejuízo), eles representam apenas 1% do dinheiro total do setor.
Já, entre as 181 instituições de pagamentos (IPs), concorrentes dos bancos, o cenário foi bem diferente, em 2025:
- A maior parte (45%) apresentou até 10% de rentabilidade.
- 25% entregou rentabilidade acima de 30%.
- O Nubank, sozinho, representa 21% do patrimônio líquido desse grupo de 181 instituições.
- Ainda em 2025, 39% das instituições de pagamento (70 empresas) fecharam no vermelho, mostrando, portanto, que as IPs ainda não ameaçam os bancos, como a Fenaban aponta.
A reunião desta terça-feira (4) contou também com a participação de uma especialista convidada pela Fenaban. A consultora Carolina Cavenaghi, fundadora da Fin4She, iniciativa voltada à qualificação e ao fortalecimento da presença feminina no mercado financeiro, abordou propostas de desenvolvimento e recolocação profissional para mulheres no setor bancário.
Após a apresentação, o Comando Nacional reforçou que a participação das mulheres nos bancos está em queda e que elas seguem sub-representadas nos cargos de liderança.
“A proposta de um curso de formação, sobretudo quando acompanhada de construção e formação de uma rede de apoio entre as mulheres, é importante, mas isso não é o suficiente para mudanças estruturais. Nosso desejo é que a Fenaban, também, apresente um plano de ação que corresponda às nossas reivindicações por mais contratação, igualdade de oportunidade, ascensão na carreira e salários iguais entre homens e mulheres”, completou a também coordenadora do Comando Nacional, Neiva Ribeiro.
A seguir os principais dados de gênero nos bancos:
- Queda de participação: de 49,1% para menos de 47%, entre 2015 e 2025.
- Atualmente, em média, as mulheres bancárias ganham 18,4% a menos do que os homens.
- Se nada for feito e considerando o ritmo histórico e recente (entre 2016 e 2025) de evolução, levará 40 anos para as mulheres e homens ganharem igual o setor bancário.
- Em 2025, as mulheres ocupavam 47,7% dos cargos de liderança.
- Entretanto, a remuneração delas nesses postos de liderança é 26% inferior à dos homens em funções similares.
- Considerando o recorte racial, as pessoas negras (homens e mulheres) ocupavam 25,2% dos cargos de liderança, em 2025.
- As mulheres negras (pretas e pardas) ocupavam 9,7% dos cargos de liderança.
Fonte: Contraf-CUT