A Comissão Executiva dos Empregados (CEE) da Caixa repudiou e recusou a proposta apresentada pelo banco para o custeio do Saúde Caixa, nesta quarta-feira (5), durante a quinta rodada de negociações específicas da Campanha Nacional dos Bancários 2026, realizada em São Paulo.
Por unanimidade, todas as federações que compõem a mesa de negociações das empregadas e dos empregados exigiram que a Caixa refaça os cálculos e apresente uma nova proposta. O entendimento é que a proposta apresentada demonstra de forma clara que a maior preocupação do banco não é com seus empregados. E ao contrário do que divulgou na Intranet, a Caixa não trouxe uma solução para o Saúde Caixa, mas sim, uma proposta em que busca se isentar de sua responsabilidade pelo custeio do plano.

Batizada pelo banco de “Modelo atual reajustado”, a proposta aumenta de 3,5% para 5,5% da remuneração-base a mensalidade dos titulares. O valor cobrado por dependente direto passaria de R$ 480 para R$ 870; o dependente indireto passaria de R$480,00 para R$ 930; e a mensalidade dos filhos com idade entre 24 e 27 anos subiria de R$ 800 para R$ 1.050. O limite de comprometimento da renda familiar seria dobrado, dos atuais 7% para 14%. A cobrança continuaria sendo feita em 13 parcelas anuais.
“Nosso entendimento é que esta proposta é profundamente desrespeitosa com quem constrói o banco todos os dias. Ela não apresenta uma solução equilibrada para o Saúde Caixa. Simplesmente transfere a conta para os empregados, afirmou a coordenadora da CEE/Caixa, Luiza Hansen.
Segundo Luiza, a proposta produziria perda efetiva de remuneração, mesmo diante da reivindicação apresentada na mesa geral de negociação com os bancos de reposição da inflação acrescida de 5% de aumento real.
“Mesmo que conquistemos a inflação mais 5% de aumento real, esse reajuste do Saúde Caixa consumiria o ganho e, em muitos casos, uma parte ainda maior da renda. O resultado seria uma campanha salarial encerrada com perda de remuneração. A Caixa está dizendo que o empregado pode até receber um reajuste, mas terá de devolvê-lo (e muito mais) para continuar com o plano de saúde”, explicou.
Para a representação sindical, a proposta é especialmente desrespeitosa porque a Caixa apresentou projeções de lucros crescentes para os próximos anos, mas desconsiderou que esses resultados são produzidos pelo trabalho diário de seu quadro de pessoal.
O representante da Contraf-CUT na mesa de negociações, Lívio Santos e Assis, observou que a mensalidade dos titulares teria aumento de mais de 57%, enquanto a cobrança pelos dependentes diretos subiria mais de 81%. O teto familiar seria elevado em 100%.
“É indecente que o banco proponha praticamente dobrar os valores pagos pelos usuários, mas se recuse a discutir o limite que ele próprio impôs à sua participação. A Caixa protege o seu teto e manda a conta para o empregado. Isso não é valorização do quadro de pessoal. É redução salarial e retirada de direitos”, afirmou Lívio.
Ele ressaltou que o aumento poderá obrigar empregados, aposentados e pensionistas a escolher quais integrantes de suas famílias permanecerão no plano.
“Não estamos discutindo uma despesa supérflua. Estamos falando do direito à saúde. Nenhum trabalhador deveria ter de escolher se mantém no plano o filho, o cônjuge ou outro dependente porque a empresa decidiu reduzir sua responsabilidade pelo custeio”, completou.
Como exemplo, na apresentação feita à mesa, a própria Caixa informou que 32% dos titulares estão na faixa de renda entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. Os trabalhadores dessa faixa, sobretudo aqueles com dois ou mais dependentes, seriam duramente atingidos e poderiam deixar o Saúde Caixa, inviabilizando o plano já em médio prazo. A representação cobrou do banco um estudo sobre a quantidade de beneficiários que abandonariam o plano caso a proposta fosse implantada.
O representante da Fetrafi-RS, Lucas Cunha, também criticou a escolha do banco de concentrar o ajuste sobre os usuários. “A Caixa escolheu o caminho mais fácil: cobrar ainda mais de quem já paga. Uma proposta como essa expulsará pessoas do plano e enfraquecerá justamente os princípios que garantem sua sustentabilidade: o mutualismo, a solidariedade e o pacto intergeracional. Menos beneficiários significam uma carteira menor, mais envelhecida e com custos proporcionalmente maiores”, declarou.
Para Lucas, ao apresentar aumentos dessa magnitude sem propor a ampliação de sua própria contribuição, a Caixa sinaliza que pretende se afastar progressivamente da responsabilidade pelo benefício.
“O Saúde Caixa é parte da política de valorização do quadro de pessoal e foi construído pelas empregadas e pelos empregados. O banco não pode tratar o plano como uma despesa da qual pretende se livrar”, acrescentou.
Os números do Relatório de Administração do Saúde Caixa mostram que a participação dos beneficiários já está muito acima dos 30% previstos no modelo histórico de custeio 70/30.
Em 2025, a contribuição líquida da Caixa foi de aproximadamente R$ 2,02 bilhões. As mensalidades pagas pelos usuários somaram R$ 1,39 bilhão e as coparticipações chegaram a R$ 303,6 milhões. Considerados esses valores regulares, a Caixa respondeu por cerca de 54% do financiamento, enquanto empregados, aposentados e pensionistas arcaram com aproximadamente 46%.
Essa distorção ocorre porque o estatuto do banco limita a participação da empresa a 6,5% da folha de pagamentos e proventos. Com o aumento das despesas assistenciais acima dos reajustes da folha, a contribuição da Caixa deixa de acompanhar os custos do plano e uma parcela crescente das despesas é transferida aos usuários. O fim desse teto estatutário e o restabelecimento efetivo do modelo 70/30 estão entre as principais reivindicações da campanha “Põe mais dinheiro, Caixa!”, aprovada no 41º Conecef.
O Saúde Caixa registrou déficit operacional de R$ 627,8 milhões em 2025, resultado de despesas totais de R$ 4,39 bilhões diante de receitas de R$ 3,76 bilhões. O exercício terminou contabilmente com saldo positivo de R$ 67,1 milhões somente depois da incorporação de R$ 581,1 milhões em contribuições patronais incidentes sobre ações judiciais e acordos trabalhistas de anos anteriores e da utilização de R$ 46,7 milhões da Reserva Técnica.
Para o Dieese, esses recursos extraordinários não representam melhora estrutural da situação financeira do plano. As pressões sobre os custos permanecem e decorrem do aumento da idade média dos usuários, da maior utilização dos serviços, do aumento da complexidade dos tratamentos, da incorporação de novas tecnologias e da inflação médica, que supera a inflação geral.
O custo médio anual por beneficiário subiu de R$ 9.854 em 2022 para R$ 15.824,24 em 2025, aumento acumulado de 60,6%. Somente entre 2024 e 2025, o crescimento foi de aproximadamente 23,5%. A avaliação do Dieese é que essa transformação estrutural no perfil assistencial deve ser acompanhada de uma ampliação real da participação financeira da Caixa, e não de uma transferência ainda maior dos custos aos beneficiários.
A situação continuou pressionada em 2026. Até maio, o Saúde Caixa acumulava déficit de R$ 222,2 milhões, com despesas próximas de R$ 1,8 bilhão.
Os dados do próprio relatório também mostram um aumento expressivo da demanda por cuidados de saúde mental. Em 2025, a psicologia respondeu por 60,3% dos custos da linha de terapias. Foram realizados mais de 1,67 milhão de procedimentos, com crescimento de 48% no número de sessões.
Para a CEE, os números não podem ser analisados sem considerar as condições de trabalho na Caixa, marcadas pela redução do quadro, sobrecarga, pressão por metas e adoecimento. O Dieese ressalta que, quando a organização do trabalho contribui para o adoecimento, a empresa deve assumir sua responsabilidade tanto na prevenção quanto no financiamento dos tratamentos.
Nesse sentido, a representação sindical reivindica que a Caixa arque integralmente com os tratamentos relacionados às doenças classificadas como B91. No contexto previdenciário, o código identifica o benefício concedido quando a lesão ou a doença possui vínculo com o trabalho (o antigo auxílio-doença acidentário, atualmente denominado auxílio por incapacidade temporária decorrente de acidente de trabalho).
A reivindicação, aprovada no 41º Conecef, busca impedir que os custos de doenças provocadas ou agravadas pelas condições de trabalho sejam transferidos ao conjunto dos usuários do Saúde Caixa. A pauta também prevê a emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho, orientação aos trabalhadores afastados e cobertura dos medicamentos e tratamentos decorrentes do adoecimento ocupacional.
“É inaceitável que o empregado seja submetido a metas, pressão e sobrecarga, adoeça dentro da empresa e depois tenha de pagar uma mensalidade ainda maior para tratar esse adoecimento. A Caixa precisa assumir os custos das doenças relacionadas ao trabalho”, reforçou Luiza Hansen.
A CEE ressaltou que não se limita a rejeitar a proposta do banco, mas apresentou na própria minuta de reivindicações diferentes alternativas para enfrentar o déficit sem inviabilizar o plano e sem impor todo o ônus aos usuários.
A representação também cobra contratações, inclusão dos empregados admitidos após setembro de 2018 no direito ao plano com participação da Caixa durante a aposentadoria, ampliação da rede credenciada, maior transparência e preservação do mutualismo, da solidariedade e do pacto intergeracional.
Ao final da reunião, a Caixa reconheceu que a proposta não havia sido aceita e informou que voltaria a avaliar o modelo. A CEE reiterou que espera uma nova formulação, com aumento da participação do banco e respeito à capacidade de pagamento dos beneficiários.
A CEE/Caixa também cobrou que o banco apresente suas devolutivas sobre as demais reivindicações apresentadas em mesa e presentes na minuta entregue ao banco.
Fonte: Contraf-CUT