O segundo dia do Encontro Nacional de Saúde do(a) Trabalhador(a) Bancário(a), realizado nesta quinta-feira (23), na sede da Contraf-CUT, em São Paulo, foi marcado pelo lançamento da cartilha “Riscos Psicossociais Relacionados ao Trabalho no Setor Financeiro — Identificação, Intervenção e Monitoramento”.
Elaborada pela professora Cristiane Queiroz, especialista em ergonomia e sistemas de produção, a publicação aborda as mudanças previstas nas normas de segurança e saúde do trabalho que tornam obrigatória, a partir de 2026, a gestão dos riscos psicossociais pelas empresas brasileiras dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), conforme a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1).
O material parte do reconhecimento de que as transformações recentes no mundo do trabalho — impulsionadas pela digitalização, automação e pressão permanente por resultados — ampliaram fatores de adoecimento mental entre trabalhadores e trabalhadoras.
Diferentemente dos riscos físicos ou químicos, que possuem limites mensuráveis, os riscos psicossociais estão ligados à forma como o trabalho é organizado e gerido. Eles envolvem aspectos como:
Quando esses fatores atuam de forma contínua e acumulativa, podem gerar sofrimento psíquico e doenças relacionadas ao trabalho.
Entre as consequências estão ansiedade, depressão, doenças cardiovasculares, problemas osteomusculares e a Síndrome de Burnout — reconhecida em 2019 pela Organização Mundial da Saúde como fenômeno ocupacional.
A cartilha destaca que o setor financeiro está entre os mais impactados pelos riscos psicossociais. Entre os principais fatores apontados estão:
Segundo o secretário de Saúde da Contraf-CUT, Mauro Salles, o debate representa um avanço importante na defesa da saúde da categoria. “A saúde mental deixou de ser um tema secundário. A partir de 2026, as empresas terão responsabilidade legal sobre os riscos psicossociais. Isso significa reconhecer que o adoecimento não é individual, mas consequência da forma como o trabalho é organizado, especialmente no setor bancário, marcado por metas abusivas, controle permanente e intensificação do ritmo laboral”, afirmou.
Ele lembra também que as empresas sempre tiveram responsabilidades de avaliar todos os riscos, mesmo os psicossociais relacionados ao trabalho, conforme a NR17. "Agora, isto fica mais ressaltado e, diante do elevado número de adoecimento psíquico, torna-se mais relevante e explícito na nova NR1."
Um dos pontos centrais da cartilha é a diferenciação entre ações de bem-estar e prevenção real dos riscos ocupacionais.
Medidas como salas de descompressão, programas de qualidade de vida ou palestras motivacionais são consideradas positivas, mas não configuram prevenção efetiva dos riscos psicossociais, pois não enfrentam as causas estruturais do adoecimento.
A publicação defende que a prevenção passa por mudanças na organização do trabalho, incluindo:
Para uma gestão eficaz, especialistas apontam a necessidade da chamada triangulação de evidências, que reúne três frentes de análise:
A proposta é ampliar a compreensão sobre a relação entre indivíduo, organização e ambiente laboral, buscando preservar a dignidade dos trabalhadores e a sustentabilidade das instituições.
Fonte: Contraf-CUT